Quinta-feira, 12 de Junho de 2008

A propósito da minha prolongada ausência...

... por onde anda Joe Berardo, que nunca mais se viu?

Invisibilidade

Era claro que esta greve dos camionistas ia acabar com subsídios e regalias dados à classe profissional, em vez de pressionar o oligopólio gasolineiro para acabar com a concertação de preços e deixar o mercado concorrencial funcionar, como era suposto ter acontecido desde o início. No entanto, embora tenha sido curta demais, esta greve lembrou a muita gente - que andava esquecida - algo de muito importante: não adianta de nada chegar ao supermercado com um maço de notas quando as prateleiras estiverem vazias. É que até os tipos que estão lá em cima, a papar as reformas dos dez mil, afinal, descobriram que precisam dos camionistas.

Só foi pena que a greve tivesse acabado tão cedo. Porque já percebemos que o povo não quer saber das licenciaturas da treta do primeiro-ministro, não dedica mais que um encolher de ombros aos escandalosos lucros da banca ano após ano, e não faz caso nenhum da actualização com efeitos retroactivos das reformas de todos os governadores do banco de portugal consoante o aumento da inflação. Nada disso interessa, na verdade. Só existe uma coisa, essa e apenas essa, capaz de libertar a massa da sua letargia passiva, do indolente "isto está difícil", e trazê-la finalmente para a rua, de dentes arreganhados - faltar o arroz, a farinha e o feijão.

De qualquer forma, com ou sem camionistas, já muita gente passa fome em Portugal. São os "outros": talvez sejam estrangeiros, imigrantes, invisíveis. Não são. Também há portugueses, bons samaritanos. Não os vemos, mas eles entram para as estatísticas: car jacking, assaltos no multibanco, tiroteios, prostituição.

Os outros, nós, eu, ignoro, claro. "Isto está difícil". O que está difícil é mesmo ver o grande plano. A boa notícia é que, faltando o arroz, o grande plano torna-se irrelevante.

Sinceramente? Já vi esse tempo mais longe. Esta, por exemplo, foi por uma nesga. Experimentem fazer greve durante um mês e vamos ver o que acontece.