Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2007

Boas festas!

Coube ao membro feminino deste blogue desejar-vos um Bom Natal, por palavras que teria também eu feito minhas, não fosse o ter de partir ainda mais cedo, também para um lugar onde não tinha acesso à Internet.

De barriga cheia de doces de Natal, mas especialmente da companhia da família e daqueles que me são mais queridos, regresso apenas para informar os nossos estimados leitores que o Puro Arábica se encontra oficialmente em período de interrupção, para festividades.

Não, no entanto, sem deixar uma palavra de apreço, especificamente, ao António Balbino Caldeira - a quem devolvo agora, embora tardiamente, os votos de Bom Natal - assim como a todos os outros leitores - e amigos - que por cá passam, e que têm contribuido para manter o Puro Arábica como um espaço não autista, no qual me tem dado um enorme prazer escrever.

Posto isto, faço questão de desejar, desde já, um óptimo 2008 para todos, e que o ano que venha nos traga mais, e melhor, enquanto seres humanos e enquanto cidadãos...

Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2007

A sofisticação do sexismo

"Circo
Comprei duas vezes a revista Atlântico. O giro é que, apesar de se armar noutra coisa qualquer, é uma revista fiel aos valores tradicionais. Os homens tratam dos assuntos sérios. Política e coisas assim. As mulheres, duas ou três que por lá andam, escrevem umas coisitas sobre a vida mundana. Blogues, espectáculos, filmes, relações e coisas assim. E os homens atlânticos aplaudem-nas como cãezinhos, neste caso cadelinhas, amestradas que brilham com os seus truques de circo. Bravo".


Este é um tema tabu. Ainda assim, estas mesmas palavras, ditas por um homem, causavam o efeito de histeria geral a que estamos habituados cada vez que alguém pisa a linha vermelha do "politicamente correcto". Da minha parte, talvez esteja a ser irresponsável, ao focar o assunto; talvez não me devesse expor de uma forma passível de ferir sensibilidades, num tema que tantas vezes tende a levar a discussão para um nível de mediocridade mental. Não é, garanto-o, o propósito destas palavras. Por isso mesmo, acho que foi um excelente sinal ter sido, justamente, uma mulher a referi-lo.

Saindo do mundo da revista Atlântico - sobre a qual não pretendo tecer outro comentário senão o de saudar a existência do projecto - creio que o texto toca num ponto sensível, que é o "desempenho" das mulheres na blogosfera, em geral, e especificamente nos blogues colectivos ditos "de referência". Acho inacreditável, e ao mesmo tempo sociologicamente curioso, que algumas das senhoras convidadas para esses blogues se posicionem automaticamente num "papel menor", a pretexto de uma "abordagem feminina". Especialmente quando essa abordagem parece ser sinónimo de análises fúteis e superficiais, em jeito de "posta de pescada", sobre seja o que for, ou normalmente sobre coisa nenhuma.

Na minha opinião, as boas ideias, tal como as imbecilidades, não têm sexo. Constato, no entanto, que talvez possa estar enganado: imagino que, se fosse um dos colaboradores masculinos a escrever exactamente as mesmas coisas ou a versar os mesmos assuntos ou temáticas, seria imediatamente e agressivamente atacado pela horda pululante de intelectuais que freneticamente percorre post atrás de post em busca do erro factual ou da imbecilidade, naquele típico e blogosférico ímpeto de denúncia feérica, carregadinho de testosterona, que serve, em última análise, o supremo objectivo de confrontar os egos e expor espólios intelectuais. No entanto, as mesmas imbecilidades - porque, analisando friamente, o são - escritas por mulheres, conduzem apenas, e invariavelmente, ao silêncio desinteressado, ou ao aplauso.

É um sexismo sofisticado, este. E encontra tantas culpas nos homens que são condescendentes com mulheres como nas mulheres que são condescendentes consigo próprias.

(Nota: poderia, claro, terminar este texto dirigindo uma série de elogios - merecidíssimos - ao membro feminino deste blogue. Dizendo que ela representa, justamente, o pólo oposto destas mulheres a quem me refiro. Mas isso seria, para além de uma constatação do óbvio, apenas mais uma forma de condescendência).

Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2007

Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2007

Perspectivas - A escrita (2)

«Alquimia do Verbo

Minha. A história de uma das minhas loucuras.
Há muito que me vangloriava de possuir todas as paisagens possíveis, e achava dignas de escárnio as celebridades da pintura e da poesia moderna.
Apreciava as pinturas idiotas, guarnições de portas, cenários, telas de saltimbancos, tabuletas, gravuras populares; a literatura fora de moda, latim de igreja, livros eróticos com erros ortográficos, romances das nossas avós, contos de fadas, livrinhos de infância, velhas óperas, refrões simplórios, ritmos ingénuos.
Sonhava cruzadas, viagens de descobertas cujo
registo não se fez, repúblicas sem histórias, guerras de religião abafadas, revoluções de costumes, deslocações de povos e de continentes: acreditava em todos os encantos.
Inventei
a cor das vogais!
A preto, E branco, I vermelho, O azul, U verde. - Determinei regras para a forma e movimento de cada consoante, e, com ritmos instintivos, gabei-me de ter inventado um verbo poético acessível, mais dia menos dia, a todos os sentidos. Reservava para mim a tradução.
Inicialmente foi um ensaio. Escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens».

Rimbaud, in "Uma temporada no Inferno"

Autocracia Europeia

Hoje, dia 13 de Dezembro, qual dia da libertação, os transportes públicos estavam de portas escancaradas, talvez para demonstrar a magnanimidade dos chefes de paróquia à comitiva de novos misteres que, de caneta em riste, se reuniu aqui no burgo para assinar, na continuidade da Cimeira dos Ditadores, em segundo almoço de negócios, o documento que ninguém aprovou, e que dá pelo nome "de Lisboa".

O que é isso, ser "de Lisboa"?. São bandeirinhas da União Europeia em todos os autocarros da carris, informa-me a SIC, em tom de ponto de exclamação. Afinal, os grandes líderes europeus comeram pasteis de belém - de Lisboa, portanto - e que pasteis! Se até foi o próprio Cavaco Silva que os serviu com um café! - continua a SIC, em tom de "olha o panda bebé que nasceu no jardim zoológico, é tão querido e peludinho".

E eu? Estava feliz; sentia-me como a Alice no país das maravilhas, depois de ter comido o cogumelo errado, a olhar para o gato de Cheshire e a pensar chamar-lhe "Democracia"...

Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007

Contra o assassinato linguístico do Português


"To: Exmo. Sr. Ministro do Estado e dos Negócios Estrangeiros Luís Amado

Exmo. Sr. Ministro Luís Amado, tivemos conhecimento que é suposto ser aprovado, até ao final do ano de 2007, o Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, nesse acordo será, alegadamente, alterado 1,6% do nosso vocabulário. Os signatários desta petição não concordam com a aprovação desse Protocolo, não querem que a Língua Portuguesa, tal como os portugueses a conhecem, seja alterada, exigimos que seja preservada a nossa Língua. Não faz qualquer sentido que este protocolo seja aprovado.

Nós não queremos escrever palavras como 'Hoje', 'Húmido', 'Hilariante' sem 'h', não queremos escrever palavras como 'Acção' sem 'c' mudo nem palavras como 'Baptismo' sem 'p' mudo.

Queremos continuar a escrever em Português tal como o conhecemos agora. E, tendo em conta o supra exposto, esperamos que o Exmo. Sr. Ministro faça com que este Protocolo não seja aprovado
".




Se ainda não estiver inteiramente convencido/a que o novo acordo se trata de uma coisa... má, pode verificar AQUI, por si mesmo/a, as suas consequências na forma correcta de escrever português.


(via JPG)


Sábado, 8 de Dezembro de 2007

O exercício da Inês

A Inês tem 13 anos e anda no oitavo ano. É a irmã mais nova de um grande amigo meu, que considero quase como família. Tendo-lhe eu dado uma vez um desenho do Bugs Bunny que fiz a carvão, num aniversário dela, a miúda lá julgou, naquela sua inocência que nos faz bem ao ego, que eu seria alguma autoridade no que diz respeito à teoria da arte e do desenho. E vai daí, ontem, aproveitou o facto de eu estar lá em casa à espera que o irmão dela se despachasse para irmos tomar café e acabou por me pedir ajuda num exercício de Educação Visual, que tinha de entregar no dia seguinte para avaliação.

"Eles têm trabalho de casa a Educação Visual", pensei eu, impressionado: obviamente, iria ajudá-la. "O quê que é para fazer?", atirou-me a Inês, com os olhos brilhantes de uma súplica esperançosa. "Deve ser fácil", pensei eu. Nunca duvidaria; apesar das artes não serem exactamente a minha área, falávamos afinal do 8º ano, e eu até dou uns toques de desenho.

Olhei então para a folha do exercício. Nela, à esquerda, estava um quadrado branco, de 6 por 6 centímetros, mais ou menos. Do lado direito, um quadrado branco quatro vezes maior. E, ao topo, o enunciado: "No módulo, desenha um cubo sob a perspectiva isométrica. Recria depois um padrão, destinado a um painel de azulejos, fazendo uso desse módulo. Classifica o tipo de padrão que utilizaste".

"Ok", disse-lhe eu. "Tens que desenhar aqui um cubo" - e apontei para o quadrado pequeno da esquerda, que descobri chamar-se módulo - "e aqui" - apontei para o quadrado maior - "tens que dividir em vários quadrados de igual tamanho e desenhar em cada um deles o cubo que fizeste no módulo, para criar o efeito de um painel de azulejos". Ela respondeu-me, com ar condescendente: "Sim, até aí eu tinha percebido. Mas como é que se faz um cubo numa perspectiva isométrica?"

"Boa pergunta", pensei eu. De facto, senti-me levemente ignorante. Não fazia ideia do que fosse uma perspectiva isométrica. Mas apostaria que uma miúda do oitavo ano deveria ser obrigadíssima a sabê-lo. Afinal, se o exercício assim o exigia, seria forçosamente porque isso lhe tinha sido ensinado. "Isso, minha cara Inês" - disse-lhe eu, assumindo o meu característico tom paternalista e não querendo de modo algum dar parte fraca da minha ignorância - "deve estar no teu manual de Educação Visual. É para isso que eles servem, sabias?" - espicacei.

Concordou; não se tinha lembrado ainda de abrir o manual, já que o livro onde constava o exercício era apenas de apoio. Assim sendo, começámos a procura: abri o manual na secção 5, com o título "Padrão", e comecei a vasculhar com olhos de lince à procura da definição - ou, pelo menos, de uma referência que fosse, um exemplo, qualquer coisa - de algo que se assemelhasse vagamente a um objecto representado sob a perspectiva isométrica.

Não vi nada. Mas vi o exercício, exactamente, do cubo, e do painel de azulejos, resolvidíssimo e chapadíssimo no manual a servir de exemplo. Boa."Estás a ver, Inês?" - disse-lhe eu - "É isto que tens que fazer". -- "E este cubo que aqui está, que é mais um paralelipípedo que outra coisa qualquer, é portanto um cubo representado em perspectiva isométrica", pensei eu, cá para os meus botões. "Fixe", disse ela, "então só tenho que copiar daí, não é?". "Sim". O único problema que eu via, mas não disse à Inês, é que infelizmente o exemplo do livro não chegou para me esclarecer acerca do que era, afinal, a perspectiva isométrica. Até porque desconfiava que, se me pedissem para desenhar uma pirâmide triangular em perspectiva isométrica, no mesmíssimo exercício, provavelmente pediria ajuda ao primeiro "desenhista de aniversário" que me entrasse pela casa adentro.

"Bom", pensei eu, "é para isso que existe a internet". Procurei no Google: "Perspectiva Isométrica". Dos resultados que me apareceram, abri um ao acaso, porque exemplificava com um cubo: "A perspectiva isométrica é". Começa bem. "...um caso especial de axonométrica. Em toda a isométrica os segmentos paralelos aos eixos x, y e z (no espaço) têm as suas projecções em V. G. (verdadeira grandeza) na perspectiva considerada".

Bolas, deve ser preciso ser engenheiro civil para perceber isto. Bah. Deixa cá ver o que é que diz a Wikipédia. Perspectiva, blá blá blá... tipos de perspectiva, blá blá blá... ah! cá está. Perspectiva Isométrica:

Mesinha em Perspectiva Isométrica, retirada da Wikipédia.

... Aaaah!!!! Um cubo, portanto! (...)

Não se vá muito mais longe. O problema da educação em Portugal é justamente este: os miúdos têm que se esforçar mais a tentar perceber os exercícios do que a resolvê-los. No entanto, não se pode dizer que não tenha sido pedagógico: eu, por exemplo, aprendi o que era a perspectiva isométrica, tive a ideia para fazer este post e saí vitorioso - e com o ego intocado, dentro do possível! - de um exercício do oitavo ano. Quanto à Inês, não fiquei para ver como corria a coisa, mas desconfio que tenha dado uma gargalhada a pensar na burrice de quem faz os manuais quando começou a copiar o exemplo que lá estava chapado. Chamem-lhe burra.

Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2007

Obrigado

Na caixa de comentários do Portugal dos Pequeninos, encontrei um comentário que resume tudo aquilo que queria dizer sobre a cimeira UE-África, mas que, não sabendo bem porquê, não tinha dito ainda:

«José Quintela said...
Para que serve esta Cimeira? Vão dizer que toda a gente se vai portar bem e prometer trocazinhas comerciais e petróleo uns aos outros?! Podiam bem fazê-lo por telefone. Entretanto gastamos nós 10 milhões de Euros para tirar umas fotos com uns quantos ditadores-zecos? É mesmo show-off à Sócrates (e à tuga parolo), esse tecnocratazinho irritante com as suas corridinhas matinais em todo o mundo. Nunca mais desaparece este palhaço inútil que nos envergonha».

Entretanto, o senhor que vai acampar aqui em baixo, (*)














... fez publicar ontem um anúncio de página inteira no jornal Público onde defende a utilização de minas terrestres nos países por si considerados "fracos", como único meio de auto-defesa, criticando a Convenção de Otava de 1997 e defendendo a sua revisão. Passa-se a citar,

"Existem outros aspectos na Convenção que não podem ser aceites:

1 - A total proibição do fabrico e utilização de minas terrestres;
2 - A destruição da reserva das minas terrestres.

Os países poderosos não precisam de minas para se protegerem. As minas são o meio de auto-defesa dos países fracos. Os países fortes, que são capazes de violentar a terra dos outros para os destruir com as suas armas estratégicas mortais, nunca pensaram nas necessidades dos fracos que não têm armas ofensivas, que não têm outra coisa a não ser armas defensivas como minas
".

O anúncio continha ainda, em grande plano, um link para a página pessoal do próprio, que vamos também deixar aqui para v/ consideração: http://www.algathafi.org/.

Sobre isto, creio que valerá também a pena ler a resposta do Pedro Sales, do Zero de Conduta.




(*)Atenção; não confundir com o que mora aqui,

que chega hoje e não sei onde se vai instalar.








Nota: este blogue cumpre as normas higiénicas vigentes e não está organizado sob um critério editorial coerente.

Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2007

Desabafo autista

Confesso, sinceramente, não saber muito bem, ao certo, exactamente exactamente, o que significa ser liberal - ou neo-liberal - mas se tivesse que apostar, assim a modos que em linhas gerais, diria que provavelmente terá alguma coisa a ver com status.

Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2007

Da série: "Não gosto mesmo nada de Partidos Políticos" (1)

"O que se passa é que o combate à "homofobia" é a próxima bandeira do Bloco de Esquerda. A sua aproximação ao PS está a criar divisões internas e problemas de identidade, como era de prever, além de o condenar à irrelevância política. Basta olhar para Lisboa: no dia em que Sá Fernandes apoiou os socialistas numa decisão difícil (e governar é isso), partiu o Bloco ao meio. Qua a nada mais aspira hoje do que a ser a consciência crítica do PS. Daí a sua hostilidade a Manuel Alegre, por exemplo, que quer ter idêntico papel de apocalíptico e integrado, na expressão de Eco que já aqui usei . É uma clara luta pela ocupação do mesmo espaço: a ténue fronteira entre ser do sistema e ser contra o sistema. O Bloco não pode chegar lá pela via eleitoral, a não ser em casos pontuais, porque a receita se esgota depressa. Também não pode chegar lá pela via sindical, que é proletária, mas não popular, e portanto nada tem a ver com o tipo de causas esquerda-chic que gosta de abraçar. E está ainda nas mãos velhas, mas sólidas, do PCP.
Restam as causas fracturantes.
São perfeitas. Têm provas dadas de sucesso e baixíssimo risco político, como se viu no referendo do aborto e como se verá com o casamento gay, que o Bloco tentará levar ao Parlamento no início da próxima legislatura (sem referendo). Unem o partido, devolvem-lhe a iniciativa política, dão-lhe a liderança da frente de esquerda, põem o PS e o PCP a trabalhar para a sua glória, colhem apoios à direita, colhem apoios na opinião pública, atraem artistas e intelectuais, têm uma aura romântica, heróica, progressista. E, sobretudo, misturam inimigos bem visíveis e mal amados: os conservadores, os "fascistas", a extrema-direita, os skins, a província, os três éfes, a Igreja. Sim, a Igreja. Não a que eles citam quando lhes dá jeito, mas a que os incomoda. E muito. Lembrem-se de quem atacaram na polémica ainda mais pífia dos rankings das escolas".