quinta-feira, 12 de Junho de 2008

A propósito da minha prolongada ausência...

... por onde anda Joe Berardo, que nunca mais se viu?

Invisibilidade

Era claro que esta greve dos camionistas ia acabar com subsídios e regalias dados à classe profissional, em vez de pressionar o oligopólio gasolineiro para acabar com a concertação de preços e deixar o mercado concorrencial funcionar, como era suposto ter acontecido desde o início. No entanto, embora tenha sido curta demais, esta greve lembrou a muita gente - que andava esquecida - algo de muito importante: não adianta de nada chegar ao supermercado com um maço de notas quando as prateleiras estiverem vazias. É que até os tipos que estão lá em cima, a papar as reformas dos dez mil, afinal, descobriram que precisam dos camionistas.

Só foi pena que a greve tivesse acabado tão cedo. Porque já percebemos que o povo não quer saber das licenciaturas da treta do primeiro-ministro, não dedica mais que um encolher de ombros aos escandalosos lucros da banca ano após ano, e não faz caso nenhum da actualização com efeitos retroactivos das reformas de todos os governadores do banco de portugal consoante o aumento da inflação. Nada disso interessa, na verdade. Só existe uma coisa, essa e apenas essa, capaz de libertar a massa da sua letargia passiva, do indolente "isto está difícil", e trazê-la finalmente para a rua, de dentes arreganhados - faltar o arroz, a farinha e o feijão.

De qualquer forma, com ou sem camionistas, já muita gente passa fome em Portugal. São os "outros": talvez sejam estrangeiros, imigrantes, invisíveis. Não são. Também há portugueses, bons samaritanos. Não os vemos, mas eles entram para as estatísticas: car jacking, assaltos no multibanco, tiroteios, prostituição.

Os outros, nós, eu, ignoro, claro. "Isto está difícil". O que está difícil é mesmo ver o grande plano. A boa notícia é que, faltando o arroz, o grande plano torna-se irrelevante.

Sinceramente? Já vi esse tempo mais longe. Esta, por exemplo, foi por uma nesga. Experimentem fazer greve durante um mês e vamos ver o que acontece.

quarta-feira, 30 de Abril de 2008

"Habemus Governo?" - O silêncio, e a crise alimentar que nos bate à porta

O aumento de 30% nos preços dos produtos alimentares num curto período de tempo e toda a especulação em torno do biocombustível, aliados à nossa extrema dependência do estrangeiro, não são factores aconselháveis de ignorar nos tempos que correm. Em Setembro de 2007, o Ministro da Agricultura pretendia apresentar à Comissão Europeia um projecto para combater a crise dos cereais. Talvez fosse uma boa altura para informar o país como corre esse assunto. Não vão as pessoas pensar, depois da entrevista do Dr. Cunha Vaz, que a política só se faz de powerpoints a laser e mudanças de logotipo.


"A Balança Agrícola Portuguesa

A Balança Agrícola Portuguesa é francamente deficitária. Como se pode constatar, em 1996 teriam saído do país qualquer coisa como 246 milhões de contos em divisas para pagar as nossas importações de produtos agrícolas. Dado que entraram cerca de 131 milhões de contos, os portugueses despenderam 115,5 milhões de contos com a importação líquida de produtos agro-alimentares e bebidas. Observa-se claramente o destaque de um conjunto de 10 mercados, 7 Europeus, USA, Angola e Brasil, para os quais os nossos valores de exportação são superiores a 6 milhões de contos.

Relativamente à Europa dos 15 (tabela intitulada Comércio Agrícola Portugal/UE), chegaram ao nosso país mais 1,6 vezes o valor dos produtos que de cá foram expedidos. Os nossos dois principais fornecedores são Espanha (42%) e França (35%) com azeite, trigo e milho. A Inglaterra ocupa o 3° lugar, como fornecedor (8%) ou como cliente (16%), proporcionando a Portugal um saldo significativamente positivo (2,2 milhões de contos), enquanto com os dois primeiros o saldo da Balança é negativo (53,7 e 31,3 milhões de contos respectivamente). Observa-se igualmente um importante saldo positivo com a Bélgica e o Luxemburgo, sobretudo devido às nossas exportações de vinho e de fruta e às fracas importações provenientes destes países.

(...)
Em relação ao Resto do Mundo (tabela intitulada Comércio Agrícola Português) são significativos os movimentos de bens agrícolas de e para a região da América Latina e Caraíbas onde naturalmente se destaca o Brasil. Deste país importamos 0,6 milhões de contos principalmente de frutas e para aí exportamos 11,5 milhões de contos de azeite, vinho e produtos lácteos. O importante saldo negativo com esta região deriva das nossas importações das Antilhas, Colômbia e Argentina de arroz, frutas e cereais (milho). Os 1,2 milhões de portugueses radicados no Brasil representam um peso significativo na distribuição alimentar, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde o posicionamento dos produtos portugueses é francamente positivo, garantindo qualidade e acabando por entrar na gama dos produtos de consumo tradicional do cidadão brasileiro.

Os dois países da América do Norte constituem o 2° parceiro não comunitário do sector agrícola, provocando um défice superior a 8 milhões de contos sobretudo em cereais e produtos hortícolas. De notar ainda a curiosa relação unilateral com a África Subsariana e os PALOPs. Relativamente à primeira região importamos (cerca de 8%) mas quase não exportamos. No tocante aos segundos exportamos (cerca de 5%) mas quase não importamos. Observando ainda o quadro Comércio Agrícola Português, podemos verificar quão modestas são as nossas trocas de bens agrícolas com as restantes regiões. Portugal é o principal fornecedor de produtos agro-alimentares e bebidas de Angola mantendo-se uma acentuada preferência pelo consumo de produtos portugueses, apesar da forte concorrência de alguns mercados europeus, bem como o sul africano.

A análise dos principais produtos exportados por Portugal mostra a fraqueza da especialização agrícola portuguesa, centrada num único produto verdadeiramente competitivo à escala mundial, tornando-se também o único produto que contribui positivamente em termos líquidos para a Balança Agrícola, alcançando cerca de 50% das nossas exportações agrárias. Com destino à Europa Comunitária saíram de Portugal cerca de 64 milhões de contos de vinho (32% para a França, 18% para o Reino Unido e 16% para a Bélgica e o Luxemburgo) enquanto o que foi exportado para o resto do Mundo representou 17,5 milhões de contos, dos quais 33% foram para os Estados Unidos da América, 13% para Angola e 10% para o Brasil. Finalmente, os produtos mais importados pelo nosso país são, relativamente à União Europeia, os cereais (41%) e o azeite (12,7%) e, relativamente aos restantes países do Globo, o açúcar (34%), os cereais (e as frutas (22%)
".

Retirado de "Agricultura e Política Agrícola Comum", de Anabela Sousa e Carlos Carvalho*, Janus 2004

terça-feira, 29 de Abril de 2008

E esta?

O Puro Arábica a aparecer na edição em papel do Público de hoje. Num post que nem sequer fazia uso do twingly - o que não deixa de ser irónico.

O poder autárquico num país burocrático

Quem levará a sério tal proibição e advertência?
Trata-se de uma sinalização de trânsito colocada num troço da ecovia existente ao longo do rio Lima, concelho de Ponte de Lima.
A coima implica o pagamento máximo de 3740.98€
(o que pressupõe que poderá haver atenuantes e se pague apenas 3719.31€ ou mesmo uns meros 2397,53€)
se, em vez de utilizarmos os ténis ou uma bicicleta, optarmos por percorrer a ecovia a bordo de um automóvel.

É claro que também há a forte e consistente hipótese de este sinal de trânsito ser, por incapacidade técnica para fazer cumprir a lei, uma tentativa bem humorada de dissuadir prevaricadores.

A ser esse o caso, substituo com prazer o título deste post

"O poder autárquico num país burocrático"

por

"O humor autárquico num país sorumbático"

"Sombra da Favela", ou a lenta marcha fúnebre rumo ao Terceiro Mundo

A Polícia tem mais que motivos para estar preocupada com aquilo que aconteceu na esquadra, em Moscavide, e se repetiu depois noutro ponto do país (não me recordo onde), no mesmo dia. Já havia muita gente que sabia que muitas esquadras, especialmente as situadas em zonas periféricas, se encontravam quase desertas, mas normalmente só o constatava quem lá ia apresentar queixa. Agora, graças às notícias e aos acontecimentos recentes, os criminosos também passaram a ter plena consciência disso. Seja, portanto, bem vindo ao "quem apresenta queixa, leva!".

A invasão das esquadras por gangs é provável? Talvez não. Mas o facto de ser inteiramente possível não deixa de ser preocupante - e uma metáfora para o clima de insegurança que, aos poucos, se vai sentindo num país onde o fosso entre ricos e pobres se acentua cada vez mais. É a "sombra da favela" que vai galgando, nesta lenta marcha fúnebre rumo ao terceiro mundo.

A propósito disto, e para acentuar o carácter alarmista ao mesmo tempo que o desdramatizo pelo ridículo da comparação, "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles, com a imortal "Dadinho o caralho! Meu nome é Zé Pequeno". Recomendo vivamente, como penitência, a quem tenha cometido o crime de ainda não ter visto.

segunda-feira, 28 de Abril de 2008

Só mais uma

"Menezes aconselhado a entrar no 'Second Life'
PEDRO CORREIA

António Cunha Vaz, que tem sido o responsável pelo marketing político da actual liderança do PSD, aconselhou ontem Luís Filipe Menezes a tentar as novas tecnologias para atrair os eleitores. E desceu ao concreto: "Qualquer partido de oposição devia ter um 'Second Life' para mostrar aos portugueses como faria se fosse Governo." Esta foi uma das novidades de um debate entre Cunha Vaz e o ex-ministro Jorge Coelho realizado na Universidade Lusíada, em Lisboa, na noite de quinta-feira".

Agora que penso nisso,

É impossível não fazer coincidir o período em que o PSD esteve na lama com o trabalho de Cunha Vaz. De facto, se há grande responsável pelos males do PSD - e do país, que se viu privado de um combate decente a José Sócrates por parte do maior partido da oposição - foi, de facto, este senhor. A incapacidade de definir ou aconselhar uma estratégia política coerente, de marcar a posição do líder como incontestável (assistindo-se a uma balbúrdia em que toda a gente quer falar e mandar), erros e erros sucessivos comunicacionais (como a reportagem sobre a vida pessoal de Menezes na Sic, que só o fez parecer ainda pior que aquilo que já era), e, claro, aquela ideia estúpida de mudar o logotipo (numa altura em que o Partido precisava, mais do que nunca, de se apoiar na sua tradição e herança política), na ânsia de protagonismo e na ânsia de mostrar trabalho, são reflexos de um PSD contruído, exactamente, sem tirar nem pôr, à imagem e semelhança de uma das frases que marcam o início desta entrevista de Cunha Vaz ao Público: "A política é um circo". Pois é. Só que há uns mais palhaços que outros. E o resultado está à vista.

Cunha Vaz, "Avante, Camarada!"

Eu confesso que comecei a escrever muito a sério sobre a entrevista que o Dr. António Cunha Vaz deu hoje ao Público. De como tinha sido um tiro no próprio pé, o facto de ter vindo descartar responsabilidades da campanha miserável que tem vindo a fazer para o PSD de Ribau, de Santana e especialmente de Menezes, passando um atestado de incompetência a este último e comprometendo seriamente a confiança que os próximos clientes na área da política possam depositar nele.

Depois ia falar da forma despudorada como se refere aos deputados do PSD como "os tipos do Mendes", ou "os tipos do Santana", ou ainda da forma como assume ter trabalhado, em simultâneo, a candidatura de Santos Ferreira à administração da CGD e as críticas do PSD à "governamentalização" do Banco do Estado. Ia recomendar a sua leitura, não aos "tipos da comunicação", jornalistas, assessores e políticos, esse triunvirato que está farto de saber como se passam as coisas e da merda que vai por trás disso tudo, mas ao cidadão comum, para que leia, apreenda, faça a digestão, e, invariavelmente, vomite, como mandaria o bom senso.

Mas depois comecei a atentar em pormenores,
"António Cunha Vaz é desde 2003 dono de uma agência de comunicação que, nos primeiros três anos, se tornou na mais importante do país";

"Porque, no dia em que eu violar o sigilo com um cliente, perco a confiança dos clientes todos. Mas posso dizer que se trata de um indivíduo que serve a vários senhores ao mesmo tempo. E não se pode amar a vários senhores ao mesmo tempo";

noutro lugar ainda,
"Ser agente de comunicação, em simultâneo, de vários bancos concorrentes, de políticos e de um clube de futebol pode ser bom para todos".

num outro,

"Porque decidiu trabalhar com o Luís Filipe Menezes?
Porque neste momento, apesar de ter uma boa carteira de clientes, interessava-me também poder aceder a outro tipo de clientes, mais próximos do Estado. Mas não consigo, não sei porquê. Tenho competência para tratar de seis empresas do PSI20, para ser agente da UEFA durante três anos consecutivos, mas não me deixam tratar de nenhuma instituição pública.

Qual é a razão disso?
Não sei. Chegam a dizer-me pessoalmente: "A sua proposta é a melhor." Mas depois há ali qualquer coisa que não passa. Já pensei que talvez seja por eu ser pequenino. Exigem tipos mais altos
".

"E achou que poderia chegar até ao poder com Menezes.
Ouça, as agências minhas concorrentes trabalham para o Governo e o PS. De quem queria que me aproximasse? Do Bloco de Esquerda?".

Eu, como de costume, não sabia se havia de rir, ou de chorar. Mas a conclusão da entrevista deu-me a resposta:

Vai tornar-se político?
Agora não posso abandonar a agência. Mas estou farto dos comentadores, de alguns jornalistas e de alguns clientes.


Na política, teria de os aturar todos.
Não, porque não queria ser o número 2 ou o número 3.
Só vou para a política, se for para mandar. "

Depois de ver isto, decidi não comentar mais nada. Comecei a pensar: Cunha Vaz vai mandar. Só que, no PS, não dá, porque acabou de os acusar, assim como a Sócrates, de o excluir de todos os concursos; nem pelo PSD, que, para além de ter Ferreira Leite, tem agora uma ala (Menezes - Santana - Ribau) que dificilmente perdoará esta entrevista a esfaqueá-los pelas costas, para além do fantástico exemplo que dá ao mundo; e também não pelo Bloco de Esquerda. Sobra o PP e o PCP.

Aí, perdi a cabeça. Comecei a vê-lo, a calcorrear a calçada portuguesa dos restauradores, com o boné vermelho, a bandeirinha, as sandálias e aqueles calções de fanfarra, mais a foice e o martelo, ao peito, com o Jerónimo pela trela, a gritar, com toda a força, "Avante, Camarada"!

Conclusão: depois de tanto trabalho a ler aquela entrevista, a única coisa que consigo produzir é este delírio. Sintomático, no mínimo.

quinta-feira, 24 de Abril de 2008

Lamento estragar a festa, mas...


Compreende-se o entusiasmo do PSD por Manuela Ferreira Leite: pela primeira vez, desde a fuga de Durão Barroso, surge uma liderança vinda do "lado sério" do PSD, longe daquela "política pimba" perseguida por Santana Lopes e Luís Filipe Menezes. Creio ser injusto, apesar da mediocridade, colocar Marques Mendes nesta lista, mas, infelizmente para ele, a sua estatura física acabou por caricaturizá-lo irremediavelmente. (Podem negá-lo à vontade - nenhum analista político referirá directamente a questão, com um receio - correcto - de descredibilizar todo o sistema democrático, mas a súmula da coisa passou muito por aí).

Seja como for, Manuela Ferreira Leite até pode ter todas as condições possíveis e imaginárias para devolver alguma dignidade ao PSD, mas não constitui ameaça real a José Sócrates. Faltar-lhe-á agressividade política para resistir ao "corpo a corpo", e tem a sua estratégia de oposição bastante dificultada, por dois motivos: é a mãe da obsessão pelo défice, e apoiou recentemente António Costa na questão do empréstimo à CML. Daí que, a ser certo que é Ferreira Leite a eleita do PSD, estou curioso para ver como vai a ex-Ministra das Finanças fazer oposição: terá que ser, certamente, uma oposição muito "criativa". Ou se torna mais papista que o Papa, (neste caso, mais Socratista que Sócrates), ou então o objectivo passa mesmo por deixar que o PSD perca, mas com alguma dignidade.

Se o plano passar pela segunda hipótese, acredito que Ferreira Leite conseguirá, se souber encontrar o seu lugar e se apostar em força na adesão que a imagem de um PSD sólido consegue obter, impedir José Sócrates de conseguir nova maioria absoluta. Tirá-lo do poder, ainda não será desta. Mas talvez isso não seja mau de todo, para o PSD idealizado por Ferreira Leite e Cavaco Silva. Mau, mau, é mesmo para quem vota.

quarta-feira, 23 de Abril de 2008

Esta depressão que me anima

O terceiro CD de "A Naifa" - Uma inocente inclinação para o mal
No mundo da música portuguesa, talvez o acorde mais perfeito entre modernidade e tradição.
Obrigado pelo "apadrinhamento", César!

segunda-feira, 21 de Abril de 2008

Dislexia

Ao reler o meu post anterior, depressa compreendi porque motivos fui parar ao estudo "Perfil Sensorial de Ovos da Páscoa" - enganei-me na pesquisa, e em vez de procurar por "Alfarroba", isso sim, um sucedâneo de chocolate, procurei por "alcachofra", não obtendo, naturalmente, quaisquer resultados satisfatórios.

Apesar de haver males que vêm por bem - ou seja, se não me tivesse enganado, não teria visto aquele importante documento para a comunidade científica - acho que não é a primeira vez que me engano dislexicamente nestes dois estranhos e insípidos vegetais. De qualquer forma, a culpa não é somente minha: para que serve, afinal, uma alcachofra? Qual a sua utilização prática? E a alfarroba, para além de não saber minimamente a chocolate, que mais utilizações tem?

Muito embora a minha curiosidade não chegue a tanto - creio que decidi passar o resto da vida alheio às potencialidades quer da alcachofra, quer da alfarroba - decidi, no entanto, publicar imagens dos vegetais, não só para purgar o meu erro, como também para dar uma ajudinha à minha memória visual, em jeito de lápide:



Uma Alcachofra.



Uma Alcachofra em Flor
(também as há, aparentemente).



Alfarrobas, no seu estado natural.



Muffins de Alfarroba.

sexta-feira, 18 de Abril de 2008

Para além da Ortografia, podemos aprender muitas outras coisas com os nossos "irmães" do outro lado do Oceano; como fazer o estudo da Ota, por exemplo

Em busca de saber se a alcachofra era, ou não, um sucedâneo de chocolate, acabei por me deparar com um importante estudo para a sociedade científica em geral, e, em si mesmo, um verdadeiro manifesto teórico sobre metodologia científica: "Perfil Sensorial dos Ovos da Páscoa".

Ficamos então a saber, em primeiro lugar, que um Ovo da Páscoa é algo que se presta a um "perfil sensorial", o que nos pode deixar estarrecidos; mas não por muito tempo, pois o primeiro grande breakthrough chega-nos logo na primeira frase: "Ovo de Páscoa é um produto de chocolate na forma de ovo comercializado no Brasil durante a Páscoa".

Sempre suspeitei que o havia qualquer coisa de "forró" num ovo da páscoa, mas confesso que fui apanhado de surpresa com a revelação do Brasil ter a exclusividade dos direitos de comercialização do produto. Imediatamente, fã como sou de Ovos Kinder, comecei a conceber-me como um horrível contrabandista; um porco colonialista, não contente com décadas e décadas de exploração, que continuava agora, em pleno séc. XXI, a surrupiar e usufruir de produtos que não eram seus; em suma, ganhei nojo de mim mesmo.

Mas as três cientistas não ficam apenas pela banalidade de reclamar a exclusividade desse "ovo da páscoa", que nunca me pertenceu afinal, como um produto autóctone brasileiro: "Análise Descritiva Quantitativa foi aplicada para levantar atributos sensoriais que melhor definem modificações na aparência, aroma, sabor e textura, quando sucedâneos da manteiga de cacau (SUMC) são adicionados ao ovo de Páscoa". Trilhando os ínvios caminhos da ciência e da ética, a mistura de raças toma aqui uma notável dimensão: a cacau o que é de cacau, a separação do trigo e do joio no que a ovos de Páscoa diz respeito. Eu era, à data, alheio a que os havia melhores; "não mais serei enganado", pensei, de lágrimas nos olhos.

Compreendi então que a importância do assunto não deixava qualquer espaço para veleidades. As autoras também, pois fizeram questão de clarificar a rigidez do processo: "Amostras com e sem a adição de SUMC foram avaliadas por uma equipe selecionada de provadores e quatorze atributos sensorial foram definidos. Após um período de treinamento, os provadores avaliaram as amostras através de delineamento de blocos completos balanceadas usando escala não estruturada de 9cm".

E as conclusões não deixavam margem para dúvidas:

" 4 – CONCLUSÕES

Quatorze atributos caracterizaram sensorialmente as duas amostras de ovos de Páscoa. A amostra que não continha na formulação sucedâneo da manteiga de cacau diferiu significativamente (p<0,05).
Ovo de Páscoa sem SUMC apresentou maior intensidade dos atributos: cor marrom, aroma e sabor característico, aroma e sabor de massa de cacau, aroma de manteiga de cacau, dureza e fraturabilidade." MEU DEUS! MEU DEUS!

Quer isto dizer que os ovos de chocolate que têm, de facto, chocolate, sabem, cheiram e parecem-se mais com chocolate do que os ovos que, em vez de terem chocolate, têm um sucedâneo de chocolate?? FILHOS DA PUTA!

Felizmente, havia gráficos:



Um dia, também aspiro dedicar toda a minha vida a uma causa estúpida, mas confesso que, depois de ler este estudo ginecológico acerca do Ovo da Páscoa, estou sem ideias nenhumas.

Só faltava esta: a Popota candidata-se a líder do PSD

Pronto, já afogaram o Menezes. Como obituário da sua liderança irrelevante, podemos dizer que foi o presidente responsável pela mudança do logotipo. Ponto final. Em seis meses, se tudo correr bem, já ninguém se lembra de uma das mais tristes lideranças do PSD dos últimos tempos.

Eu sei, estou a ser mauzinho. Este tipo de crueldade para com os desfavorecidos, ao contrário do que possa parecer, vai contra a minha educação humanista. Mas pronto, uma vez não são vezes.

Se existe alguma relação directa entre a entrevista de António Borges à Judite de Sousa não sei dizer, mas o PSD não tem remédio de qualquer forma: se, em tempo certo, ninguém se atreveu a dar um passo em frente, deixando concorrer a mediocridade-mor chamada Menezes contra o rotundo fracasso chamado Marques Mendes, agora os potenciais candidatos desdobram-se e desmultiplicam-se como cogumelos: Passos Coelho, Aguiar Branco, Ferreira Leite, e ainda um possível Rui Rio, sempre mais cauteloso, muito mais cauteloso, mas notoriamente à espreita do momento certo. Mas nenhum deles conta com o elemento surpresa, e talvez o único candidato capaz de vencer José Sócrates: a popota. Hiper popular, com aquele seu ar amorável (uma mistura de amoroso com adorável) e aquele seu tutuzinho, que lhe dá aquele toque feminino à hillary clinton, a célebre político-zoo-dançarina prepara-se para tomar de assalto o PSD e mudar, uma vez mais, o logotipo, para "hiper PSD", com o slogan "Liderança em Saldos".

Fiquem para ver os próximos episódios.

quinta-feira, 17 de Abril de 2008

Made in China

Nem sempre acontece, mas...
as mil palavras da minha opinião sobre um
assunto podem ser expressas numa só imagem.

quarta-feira, 16 de Abril de 2008

A ratoeira dos blogues

O aparecimento de plataformas nos media como o Twingly, do Público, ou a recente agremiação de "blogues de referência" ao Expresso, a pretexto da ratoeira da "visibilidade" (ou outros factores, como o Page Rank do Google) contribui ou não para a cartelização da opinião pública e para o cordeirismo da blogosfera em relação à agenda mediática, da qual ia conservando - embora cada vez em menor escala - relativa independência e distância?
Transformar o "cidadão comum" (escolhido a dedo, no caso do Expresso) em comentador "oficial e legítimo" das notícias, é remetê-lo directamente, tal como toda a sua liberdade de comentador, para a escravatura das audiências e o politicamente-correcto-suavizante da linguagem dos media.